
Neste novo álbum, as coladeras sobrepuseram-se às mornas. Realizado por Nando Andrade e produzido por José da Silva, “Nha Sentimento” traz consigo emoções profundas, incapazes de dissipar excertos aparentemente leves, mas muitas vezes sérios, dos seus temas, em que a alegria de viver supera muitas vezes a dor, o arrependimento e o desejo. E quando assim não é, as palavras traduzem um fatalismo ilhéu, que Cesaria toma de imediato como seu, por ter vivido tanto do que canta, à imagem de Vento de Sueste, uma morna que remete para sentimentos dos quais ela nunca se separou.
Zinha é um dos títulos mais arrojados do álbum. Ligeiro, o tema dissipa as emoções fortes, incitando à dança. E como sucede com a maioria dos títulos deste álbum, Cesaria tem ao seu serviço um delicado trabalho de percussão, assinado por Tey Santos. Herdeiro da cena musical caboverdiana dos anos de 50 e 60, este músico aprendeu a tocar com os músicos da sua época, que lhe transmitiram a sua sabedoria. Na sua forma de tocar, encontra-se certa nostalgia desses anos dourados. Como verdadeiro divulgador, perpetua uma forma de tocar em vias de extinção, mas que assenta perfeitamente na voz de Cesaria, a quem já tinha acompanhado no álbum “Mar Azul”, que a revelou ao mundo em 1991. Plena de subtilezas, mas muito presente, a sua forma de tocar é uma das chaves do disco. O produtor e pianista Nando Andrade invoca-o, acentuando assim o sentimento de nostalgia, enquanto o estilo mais moderno do outro percussionista – Miroca Paris – apenas surge com alguma parcimónia.
O outro ponto alto deste novo disco é Ligereza, onde voltamos a encontrar o acordeão de Henry Ortiz, gravado em Bogotá. Esta canção possui um encanto imediato, leve como uma brisa de Verão, que traz a esta melodia caboverdiana um toque latino e dá a impressão de que toda a vida conhecemos aquele trecho.
O canto de Cesaria está em total consonância com a produção e os músicos que a acompanham. De facto, ela nunca investiu tanto numa gravação, trabalhando em estreita colaboração com o Nando. No seu melhor nível emocional, recupera a intensidade e a qualidade dos seus melhores anos.
E se, neste álbum, Cesaria privilegia os temas mais arrebatadores, não renuncia, no entanto, ao estilo musical com que construiu a sua reputação. As três mornas do álbum, Vento de Sueste, Sentimento, Mam’Bia E So Mi beneficiam de arranjos de cordas egípcias, assinados por Fathy Salama, que dirige a Grande Orquestra do Cairo. Este confronto natural reforça o facto de a morna ter raízes árabes, através da música árabe-andaluza, segundo afirma o musicólogo Vasco Martins.
Um tema como Mam’Bia E So Mi remete deste modo para os grandes momentos de Oum Kalsoum e de Abdel Halim Afez, pela graça luminosa dos arranjos de cordas. Pontuada de novos acentos, a voz de Cesaria ornamenta-se de outras cores: o azul e o verde de Cabo Verde, que aqui se transformam em tons de púrpura e castanho avermelhado, enquanto a sua elegância vocal vai até ao essencial e acerta sempre em cheio no alvo.
Alegre, Esperança di Mar Azul, surge renovado com temas familiares, uma maior respiração dada pelas percussões e a auréola subtil e melancólica do acordeão de Régis Gizavo. Composto por Teófilo Chantre, Esperança di Mar Azul é um título pleno de esperança, mas também imbuído de uma eloquência sempre viva. “A esperança do mar azul / Leva os que crêem no seu amor”, canta ela aos amantes, rumo aos chuviscos do Atlântico, ao vento e ao sol.
Fiel aos seus hábitos, Cesaria confia no destino, à imagem de Fatalidade, em coros amargo-doces. “Trabalha, luta e canta / Rega a tua vida com o suor da tua alegria / A fatalidade acabará / E o teu dia virá, sim o teu dia …”, canta, como se a sua vida tivesse sido sempre lá, sem nunca olhar para trás. Esta maneira de avançar, olhando a direito à sua frente, quaisquer que sejam os obstáculos, continua a ser uma das suas principais qualidades, não obstante todos os acentos nostálgicos que Cesaria possa colocar no seu canto.
Ao sabor destes catorze temas, assinadas principalmente por Teófilo Chantre e Manuel de Novas, Cesaria celebra uma vez mais o seu país, como no eloquente Verde Cabo di Nha Odjos, um poema de Luis Pastor em parceria com Teófilo Chantre. “Verde Cabo do meu olhar / Mindelo das minhas glórias / Quero morrer no teu verde / E viver nas tuas canções”. Não se poderia imaginar melhor epitáfio para os temas de “Nha Sentimento”.
Cesaria Evora / Nha Sentimento
CD Lusafrica 562502
Lançamento: 26 Outubro 2009